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Como entender ESTE, ESSE e AQUELE em provas do CESPE

Português: fiel de balança!

 

As agências reguladoras estão com promessas de concursos públicos para este ano e o próximo. Com salários altos, tais concursos têm atraído ainda mais pessoas para os certames. Assim, a prova deve ser cada dia mais seletiva, com questões mais bem elaboradas e exigindo dos candidatos relações semânticas contextualizadas do português e das outras matérias. A Língua Portuguesa será mais uma vez determinante nos estudos dos candidatos de excelência.

Estudar com excelência significa aproveitar seu tempo com o máximo de qualidade. O tempo para o estudo é muito importante, mas o que se faz e como se faz é ainda mais proveitoso para se obter sucesso seguro em menos tempo. Por isso, sempre que for estudar português atente para as matérias que mais caíram nas provas anteriores. Preste atenção nas bancas, pois foram muitas e as mais variadas. Tome para si a responsabilidade de fazer algo pelo seu futuro e não delegue a ninguém mais essa finalidade.

Vejamos então algumas dicas importantes para que foque naquilo que mais cai nessas provas. As bancas examinadoras se misturam entre CESPE em seis das nove agências reguladoras, duas agências tiveram a ESAF como banca assim como mais duas a NCE, além de FCC e FUNIVERSA. Então, ao estudar para esses concursos, deve-se ter em mente o CESPE/UnB primeiramente, depois outras nuances singulares dessas outras bancas.

Para o CESPE, deve-se atentar para a pontuação, concordância, regência e crase. A interpretação de textos é muito importante no CESPE, pois ele prima pelo entendimento global do texto e por suas mudanças significativas, proporcionadas pelas mudança de vocábulos ou de conjunções.

Fiquem atentos ao uso de ESTE, ESSE e seus afins. Meu Deus! Quantos erros dessa natureza tiraram candidatos fortes de listas importantes de concursos. Na redação, é fatal errar uma expressão dessas, pois, se sua nota estiver no limiar da média, o erro pode custar sua aprovação.

  1. Vejamos o uso correto. Muitos professores ensinam somente um terço da questão em si. Falam do fato de ser anafórico – referir-se à expressão anterior, já escrita – o pronome ESSE; e de ser catafórico – referir-se a expressão posterior, que ainda será escrita – o ESTE.

Estava tudo bem aos 30min de jogo, NESSE instante caiu um raio no campo.

 

Passar! Meu sonho é ESSE.

 

ESTE é meu sonho: passar!

 

Comecemos os poréns! Quando houver necessidade de citar dois elementos anteriores, para evitar ambiguidade, usa-se o ESTE.

 

Ana e Bia saíram: ESTA comprou sapatos; aquela, bolsas. (ESTA=Bia; Aquela=Ana)

 

Não. Não posso usar o ESSE, pois ele se refere ao elemento anterior e no caso temos dois. Não se afirmaria a qual dos dois o autor da frase poderia se referir?

 

  1. Na questão do uso em relação ao tempo, usa-se o ESTE para indica tempo presente ou futuro mais próximo. E ESSE quando se referir ao passado.

 

NESTE domingo, haverá corrida de F1. (ou se refere a hoje ou ao próximo domingo)

 

Massa venceu a prova de F1 DESTE domingo. (pelo verbo no passado, pode-se afirmar que era domingo quando se escreveu a sentença.)

 

Nessa semana, houve bastante protesto. (deve ser uma semana passada e não a que se está no momento ou se não houve referência clara, deve-se grafar NESTA.)

  1. Na questão de espaço, lugar, deve-se usar o ESTE indicando ‘aqui’ e ESSE indicando o ‘aí’.

 

O Brasil é uma nação de vencedores. ESTA / ESSA nação deve muito ao seu povo.

 

Aqui tanto faz – expressão que linguistas como Bruno Pilastre odeiam –, pois temos usos distintos, reparem:

 

Se usar ESTA, refiro-me ao lugar, aqui no Brasil. Mas, se uso ESSA, posso me referir a ‘nação’ dita anteriormente. Portanto, o uso é indiferente, mas os motivos são distintos mesmo.

 

Cuidado. Em provas de concursos, especialmente nas de redação, fica a dica de sempre prestar atenção quando do uso de tais expressões.

 

 

Sempre me perguntam qual a diferença do adjunto adnominal – AADN – e do complemento nominal – CN. Coisinha complicada de entender, não é mesmo? Alguns ensinam por morfologia – dizendo que basta saber se o substantivo é abstrato ou concreto para diferenciá-los. Bom, não sei meus colegas, mas ‘odeio do fundo do meu ódio’ – expressão que li uma vez e me marcou, como será um ódio desses? – gramáticas prontas com fórmulas mais do que passadas.

 

Se pegarmos a gramática do renomado mestre Evanildo Bechara, encontraremos exemplos e explicações que até mesmo a ele confundem. Conversava com um professor na semana passada sobre isso. Exemplos prontos, fórmulas mágicas para desviar o estudante da linha textual ocorrem muito nas gramáticas. Longe de dizer que o mestre tenha errado, mas o assunto é mesmo espinhoso.

 

Parte chata I: a teoria! Precisamos saber que CN é sempre preposicionado e um termo obrigatório depois de solicitado por um substantivo, adjetivo ou advérbio. Seu caráter é de ser paciente da ação do nome (substantivo em derivação regressiva/deverbal). Por quê? O CN funciona como um objeto do nome – objeto nominal –, como isso não existe (ainda!), chamamos de CN.

 

A necessidade DE SUCESSO é enorme.

 

Temos a certeza DA APROVAÇÃO.

 

Foi adiada a votação DA MP.

 

A invenção DO TELEFONE mudou o mundo.

 

Os juros correm paralelamente AO CÂMBIO.

 

Todos LHE serão úteis.

 

Nesses exemplos, os substantivos ‘necessidade’, ‘certeza’, ‘votação’ e ‘invenção’ dão ideia de ação e pedem complementos. Nesses casos, os complementos foram pacientes: ‘necessitamos de sucesso’; ‘temos certeza da aprovação’; a MP foi votada’; ‘o telefone foi inventado’. Nas duas últimas orações, as expressões em maiúsculas se unem a termo adverbial na penúltima, e a termo adjetivo na última. Ligados a ADV ou a ADJ, sempre teremos um CN.

 

Parte chata II: mais teoria! Já o AADN é um termo que necessita do substantivo para existir. Sendo assim, o artigo, o pronome, o numeral e o adjetivo, quando ligados a um substantivo, revelam-se como AADN. Somam-se a isso as locuções adjetivas – aí mora o perigo! – que, por terem valor de adjetivo, também possuem a função de AADN – e preposição, para confundir-se com o CN. Neste caso, têm a função de sujeito da ação do nome, quando ligadas a um substantivo com ação.

 

A invenção DO SÁBIO mudou o mundo.

 

Foi adiada a votação DO CONGRESSO.

 

A prova DE PORTUGUÊS será fácil.

 

AS MINHAS PRIMEIRAS e LINDAS éguas DE CORRIDA morreram.

 

Nas duas primeiras orações, os complementos dos substantivos que indicam ação – ‘invenção’, ‘votação’ – são agentes dessa ação, portanto AADN. Nas duas últimas, o elemento preposicionado se une a substantivo sem ação, portanto é um valor ADJ, então AADN.

 

Que tal irmos à parte boa, então?

 

Resumindo:

 

  • quando se tem uma expressão ligada a um ADJ ou ADV, função de CN, sem titubear.

 

  • quando se tem expressão ligada a substantivo sem ação, função de AADN, sem pestanejar.

 

  • quando se tem expressão ligada a um substantivo com ação, cuidado!, ela pode fazer o papel de agente ou de paciente dessa ação. Se agente, AADN; se paciente, CN.

 

Que tal agora um desafio para a semana que vem eu postar o resultado? Pois bem:

 

A plantação DE MILHO será prejudicada./ A plantação DO MILHO será prejudicada. / A plantação DE MILHO será queimada. / A plantação DO MILHO será queimada.

 

Como se diz em latim: Alea jacta est! Na próxima edição, a resposta, ou se preferir e a comichão da curiosidade não deixar, pode entrar em contato pelo twitter @professordiego.

 

Que tal sabermos um pouco de vírgula explicativa e de sua ausência quando a ideia for restritiva? Sempre que houver uma ideia de totalidade, tem-se explicação e o uso obrigatório da vírgula para separar a expressão explicada de sua explicação. Vejamos:

 

Não é o ângulo reto que me atrai

nem a linha reta, dura, inflexível,

criada pelo homem.

O que me atrai é a curva livre e sensual,

a curva que encontro nas montanhas do meu país,

no curso sinuoso dos seus rios,

nas ondas do mar,

no corpo da mulher preferida.

De curvas é feito todo o universo

o universo curvo de Einstein.

 

Oscar Niemeyer. Minha arquitetura – 1937-2005.

Rio de Janeiro: Editora Revan, 2005, p. 339.

 

Nesse poema de Niemeyer, percebe-se que ‘dura, inflexível’ qualifica de maneira explicativa a ‘linha reta’. Para essa construção, toda ‘linha reta’ é dura e inflexível, sem exceções. Como sabemos disso? A Vírgula Acrobata aparece justamente para marcar a presença do sentido explicativo que se quer dar à expressão. Assim, pode-se dizer – com o texto já pronto, em que não se questiona a verdade escrita – que o autor, quando quer imprimir ideia de totalidade ao que se diz, utiliza-se da vírgula.

 

Quando, ao contrário, quer-se mostrar a não-totalidade de uma expressão, o autor não usa a vírgula propositadamente, trazendo a ideia de restrição à expressão. Verifica-se isso, no poema, em ‘curva livre e sensual’. Aqui nem toda a ‘curva’ é livre e sensual. A semântica do trecho se dá porque o poeta não se atrai por qualquer curva e sim por aquela ‘livre e sensual’. Ao não impor a vírgula separadora de explicação, ele traz a ideia de restrição à expressão ‘curva’.

 

Por que nossa revista traz esse tema à baila, ou melhor, à tona? Essa questão foi objeto de pergunta na prova do concurso para a carreira de Diplomata/2011, do CESPE/UnB. A questão 8, assertiva C, pede a opção correta e tem essa redação:

 

C – Com base no emprego dos sinais de pontuação no texto I, depreende-se que, para o autor do poema, toda linha reta criada pelo homem é dura e inflexível, e nem toda curva é livre e sensual.

 

Não só essa questão trazia tal tema na prova supracitada, outras duas vezes foi solicitado que se fizesse tal análise:

 

Questão 11, item 1 – No trecho “Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança” (R.19-22), o narrador apresenta, por meio de uma comparação, uma das razões de não gostar de despedidas, caracterizando, de forma restritiva, o elemento com que compara as despedidas.

 

Trecho do texto: A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e submete-se à aprovação do poeta, como se realmente, a cada instante, lhe pedisse para ajustar seu timbre à audição do público.

 

Questão 2, item 3São pertinentes as seguintes inferências a partir da pontuação e dos mecanismos de coesão empregados no período entre as linhas 26 e 30: entre todos os fantasmas, alguns são conhecidos por todos os artistas, e o poeta harmoniza, a todo momento, o timbre de sua voz à audiência.

 

Nesta questão, tem-se que o trecho em que se pede a inferência sobre ele é explicativo, como se comprova com o uso das vírgulas. Portanto, todos os fantasmas todos os artistas conhecem. Assim, o que torna o item falso é o fato de o item trazer ‘alguns’ fantasmas com conhecidos dos artistas. Isso ocorreria se não houvesse a vírgula separando os termos.

Sucesso! Prof. Diego Amorim

 

admin

14 Comments

  1. Professor eu adorei essas dicas de português, gostaria de receber mais informações a esse respeito no meu e-mail….obrigada!!!!

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